
Alunos que não querem fazer nada: o que realmente pode aumentar o engajamento em sala
“Professora, vale ponto?”
“É para copiar?”
“Tem que fazer?”
“Posso fazer depois?”
Se você dá aula, provavelmente já ouviu alguma dessas perguntas.
Talvez todas elas. Na mesma aula.
E existe uma situação ainda mais frustrante: você prepara uma atividade diferente, escolhe um vídeo, monta os grupos, imprime material, pensa em uma dinâmica que parecia incrível durante o planejamento…
…e uma parte da turma simplesmente não quer participar.
Eu entendo perfeitamente de onde vem essa sensação.
Mas tenho pensado cada vez mais que essa frase, apesar de compreensível, explica muito pouco sobre o que está acontecendo dentro das nossas salas.
Porque “não fazer” é um comportamento.
A pergunta mais interessante é:
por que aquele aluno decidiu que não vale a pena tentar?
E essa mudança de pergunta pode alterar bastante a maneira como pensamos o engajamento.
Imagine três alunos que estão diante da mesma atividade.
Os três podem apresentar exatamente o mesmo comportamento: não começar a atividade.
Mas temos três problemas completamente diferentes.
É por isso que estratégias universais de “motivação” costumam funcionar tão mal.
Colocar um jogo talvez ajude um deles.
Dar ponto talvez movimente outro por alguns minutos.
Fazer uma competição pode envolver uma parte da turma.
Mas nenhuma dessas coisas necessariamente resolve o motivo pelo qual o aluno deixou de investir esforço na aprendizagem.
E existe ainda uma situação particularmente delicada nas escolas: o aluno que aprendeu que é mais seguro não tentar.
Se eu não faço, ninguém descobre que eu não sei.
Se eu digo que estou com preguiça, preservo minha imagem diante dos colegas.
Se transformo tudo em piada, não preciso enfrentar a possibilidade de errar.
Às vezes, aquilo que interpretamos como desinteresse também pode esconder dificuldade.
Isso não significa procurar uma justificativa para todo comportamento nem retirar do estudante sua responsabilidade.
Significa apenas reconhecer que, se diagnosticarmos errado o problema, provavelmente escolheremos a estratégia errada para resolvê-lo.

Quando uma turma está apática, existe uma tentação muito compreensível:
“Preciso fazer uma aula mais divertida.”
Então aparecem Kahoot, Wayground, vídeos, jogos, competição, QR Codes, caça ao tesouro, Inteligência Artificial…
Eu adoro todos esses recursos.
Mas precisamos separar duas coisas: atividade divertida e atividade intelectualmente envolvente não são sinônimos.
Um aluno pode passar quarenta minutos extremamente animado durante um jogo e sair da aula tendo pensado muito pouco sobre Ciências.
Também pode estar silencioso, olhando para uma tabela e discutindo seriamente com um colega por que determinada população diminuiu em um ecossistema.
Qual dos dois estava mais engajado?
Depende do que chamamos de engajamento.
Se nosso indicador for barulho, participação e entusiasmo, provavelmente o primeiro.
Se observarmos esforço cognitivo, talvez seja o segundo.
Essa distinção é importante porque nosso objetivo não deveria ser apenas fazer o aluno participar da atividade.
Queremos que ele participe da aprendizagem.

Existe uma diferença enorme entre começar assim:
“Hoje vamos estudar relações ecológicas.”
e começar com:
“Os sapos desapareceram desse ecossistema. Três meses depois, aconteceu algo estranho com a população de insetos. O que vocês acham que aconteceu?”
Antes de apresentar a resposta,
Uma situação que provoque a sensação de:
“Espera… por quê?”
Em Ciências temos uma vantagem enorme: praticamente todo conteúdo pode começar com um fenômeno.
Por que ficamos arrepiados?
Por que sentimos tontura depois de girar?
Por que uma garrafa gelada fica molhada por fora?
Por que algumas doenças praticamente desapareceram e depois voltaram a registrar casos?
Por que retirar uma espécie pode alterar várias outras populações?
Por quê? Por quê? Por quê?
O conteúdo deixa de ser apenas algo que o professor decidiu ensinar naquele dia e passa a ser uma ferramenta necessária para explicar alguma coisa.
Essa pequena mudança pode produzir algo precioso: necessidade de saber.

Muitas atividades escolares já chegam com quase todas as decisões tomadas.
O aluno só executa.
Mas executar uma sequência de comandos exige um tipo de participação muito diferente de decidir.
Experimente apresentar:
“Temos R$ 100 mil fictícios para reduzir a transmissão dessa doença no município. Não podemos financiar todas as ações. Em quais medidas devemos investir?”
Agora há escolha.
E escolha produz consequência.
Podemos fazer isso em praticamente qualquer conteúdo:
Não precisamos oferecer liberdade absoluta.
Às vezes, três possibilidades já são suficientes para transformar o aluno de executor em alguém que precisa decidir.
Existe um comportamento que vejo com frequência.
O aluno escreve uma resposta.
Apaga.
Olha para o colega.
Espera.
“Professora, está certo?”
Ele não está necessariamente procurando uma explicação.
Está procurando autorização para continuar.
Quando toda tentativa errada é imediatamente corrigida, marcada ou exposta, alguns estudantes aprendem que a melhor estratégia é descobrir a resposta certa antes de se comprometer com uma resposta própria.
E aí perdemos uma parte importantíssima da aprendizagem: pensar antes de saber.
Em atividades investigativas, gosto muito mais de perguntas como:
O erro deixa de ser o final da tentativa e passa a ser informação para a próxima.

Aqui existe um ponto que considero especialmente importante quando trabalhamos com alunos que acumulam dificuldades.
Imagine um estudante que abre uma atividade e encontra um texto enorme.
Ele lê o primeiro parágrafo com dificuldade.
Não entende.
Tenta a primeira questão.
Não consegue.
Olha para as outras nove.
Antes mesmo de começar, ele já sabe como aquela experiência provavelmente terminará.
Nós costumamos interpretar o abandono como falta de esforço.
Isso não significa tornar tudo fácil.
Significa construir uma entrada possível.
O desafio precisa crescer.
Quando tudo começa no nível máximo, alguns alunos abandonam antes de descobrir que seriam capazes de chegar lá.
Imagine dois feedbacks:
“Você tirou 5.”
e:
“Na atividade anterior você conseguia identificar os órgãos. Agora já consegue relacionar três deles às suas funções. O próximo passo é explicar como trabalham juntos.”
Os dois falam sobre desempenho.
Mas apenas um mostra um caminho.
Quando o estudante percebe progresso, começa a existir uma mensagem implícita:
“Aquilo que eu faço interfere no que consigo aprender.”
Isso é muito mais poderoso do que simplesmente dizer “você precisa estudar mais”.
Rubricas simples, checklists, barras de progresso, níveis, portfólios e pequenas autoavaliações podem tornar esse avanço visível.
E não precisamos transformar tudo em nota.
Às vezes basta terminar uma sequência perguntando:
Antes desta aula eu pensava que…
Agora eu consigo explicar…
Ainda tenho dúvida sobre…
Profe, compare essas duas opções:
“Explique a função do sistema nervoso.”
com:
“Uma pessoa toca acidentalmente em uma panela muito quente e retira a mão antes mesmo de perceber conscientemente a dor. Como o corpo conseguiu responder tão rápido?”
A segunda pergunta não necessariamente é mais difícil.
Mas existe algo para explicar.
Isso faz diferença.
Podemos transformar conteúdos em:
A pergunta que faço durante o planejamento é:
“Existe alguma coisa aqui que o aluno possa descobrir em vez de simplesmente receber?”
Nem sempre existe.
Mas quando existe, vale explorar.
Uma explicação de vinte minutos antes da primeira participação pode ser longa demais para determinadas turmas.
Experimente quebrar a aula:
Essa alternância entre receber informação e fazer algo com ela ajuda a evitar que o aluno permaneça tempo demais apenas como espectador.
E existe uma vantagem adicional: o professor começa a enxergar durante a aula o que os estudantes estão compreendendo.
Conduzir a aula dessa maneira não é fácil para alguns professores, mas com a prática, essa estratégia vai-se tornando algo mais natural e fácil de executar.

Profe, vamos comparar duas opções novamente.
Veja essa primeira pergunta:
Qual é a função do coração?
Não existe muito espaço para discussão, né?
Agora experimente:
“Uma pessoa afirma que o coração é o órgão mais importante do corpo humano. Vocês concordam?”
A pergunta não possui uma resposta simples.
Os alunos precisam definir “mais importante”, comparar sistemas, construir argumentos e provavelmente perceber que o funcionamento do organismo depende da integração entre diferentes estruturas.
Trabalho em grupo não é automaticamente aprendizagem colaborativa.
Todos nós conhecemos o clássico:
“Você faz a 1 e a 2, eu faço a 3 e a 4.”
Cinco minutos depois, juntam as respostas. 😂
Para existir colaboração, a tarefa precisa criar interdependência.
Uma possibilidade é distribuir informações diferentes.
A equipe só consegue resolver o problema quando compartilha as informações.
Agora existe uma razão cognitiva para trabalhar junto. Nesse ponto, a inteligência artificial pode ser muito útil pra te ajudar no planejamento. Trouxe um prompt pra te ajudar com isso:
Copie e cole este prompt no ChatGPT, Gemini, Claude ou outra IA de sua preferência:

Talvez essa seja a parte menos confortável desta conversa.
Nós não vamos ganhar essa competição.
Uma aula não precisa oferecer um novo estímulo a cada quinze segundos.
Não precisamos transformar todo conteúdo em jogo.
Não precisamos fazer cada aula ser inesquecível.
E definitivamente não precisamos assumir sozinhos a responsabilidade por manter trinta estudantes permanentemente entretidos.
Engajamento não significa eliminar esforço.
Significa ajudar o aluno a perceber que existe alguma razão para realizá-lo.
Por isso, uma boa aula pode ser divertida.
Mas também pode ser difícil.
Pode exigir leitura.
Pode exigir silêncio.
Pode exigir tentativa.
Pode exigir voltar ao problema.
Pode exigir não saber imediatamente.
Nosso desafio talvez não seja tornar a aprendizagem tão estimulante quanto uma rede social.
É construir situações em que o estudante descubra que pensar também pode ser interessante.
Quando uma aula não funciona, é natural pensar:
Como faço meus alunos se interessarem?
Mas essa pergunta coloca uma responsabilidade gigantesca sobre o professor.
Talvez possamos substituí-la por outras:
Nenhuma dessas estratégias fará todos os alunos se envolverem em todas as aulas.
Essa promessa seria desonesta.
Existem fatores sociais, emocionais, familiares, escolares e individuais que uma metodologia não consegue resolver sozinha. E o estudante também possui responsabilidade sobre sua própria participação.
Mas existe uma parte do engajamento sobre a qual podemos agir.
Não controlamos se o aluno decidirá aprender.
Podemos, porém, construir uma sala em que valha mais a pena tentar.
E talvez esse seja um objetivo muito mais realista e pedagogicamente mais interessante do que tentar fazer todo mundo “amar a aula”.
Beijos da profe.
Patricia Galvão
OBS: As imagens que ilustram esse post foram elaboradas com ajuda do Gemini, ChatGPT e NotebookLM.
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